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O que muda na radioterapia brasileira com a chegada da protonterapia

  • 1 de fev.
  • 4 min de leitura

Imagem ilustrativa: A protonterapia pode ser direcionada aos tumores com mais precisão, causando menos danos aos tecidos saudáveis @getty images na BBC News Brasil


Durante muitos anos, o Brasil acompanhou de longe o avanço da protonterapia — uma tecnologia que já vinha sendo adotada em centros de referência nos Estados Unidos, Europa e Ásia, mas que ainda não fazia parte da realidade nacional. Para quem atua diretamente na radioterapia, isso sempre representou um limite importante: sabíamos que existia uma ferramenta mais precisa, mais segura para determinados perfis de pacientes, mas que não estava disponível no nosso sistema de saúde.


Hoje, esse cenário começa a mudar.


Com a implantação do Centro de Protonterapia Mário Kroeff, no Rio de Janeiro, entramos oficialmente em uma nova etapa da oncologia radioterápica no país. Não se trata apenas da chegada de um equipamento novo, mas da construção de uma infraestrutura clínica, científica e operacional que coloca o Brasil no radar global da terapia por partículas.


Por que a protonterapia representa um salto tecnológico


A principal diferença entre a protonterapia e a radioterapia convencional está no comportamento físico do feixe dentro do corpo do paciente.


Enquanto os fótons (raios X) atravessam o tecido liberando energia ao longo de todo o trajeto, os prótons permitem concentrar a maior parte da dose exatamente no alvo tumoral fenômeno conhecido como Pico de Bragg. Na prática, isso significa:


  • Maior precisão no tratamento

  • Menor exposição de órgãos saudáveis

  • Redução do risco de efeitos colaterais tardios

  • Maior segurança em tumores próximos a estruturas sensíveis


Essa característica é especialmente relevante em oncologia pediátrica, tumores do sistema nervoso central, cabeça e pescoço, base do crânio e casos que exigem reirradiação.

Veículos como a UOL e portais médicos especializados vêm destacando exatamente esse ponto: a capacidade da protonterapia de “poupar a vizinhança sadia do câncer”, reduzindo sequelas que muitas vezes aparecem anos após o tratamento.


O contexto brasileiro: de atraso tecnológico à virada de chave


Apesar de aprovada no Brasil desde 2017, a protonterapia nunca havia sido implementada no território nacional. Isso criava um paradoxo: tínhamos conhecimento técnico, profissionais capacitados e demanda clínica, mas não a infraestrutura necessária.


O projeto do Centro de Protonterapia Mário Kroeff surge justamente para romper esse ciclo.


A iniciativa é liderada pela Fundação Severino Sombra (FUSVE), em parceria com a IBA – Ion Beam Applications, empresa belga reconhecida como referência mundial em tecnologia de protonterapia. O investimento ultrapassa R$ 400 milhões e contempla não apenas o fornecimento do sistema Proteus®ONE, mas também acordos de operação, manutenção e atualização tecnológica.


Esse modelo foi pensado para garantir que o centro brasileiro nasça já alinhado aos padrões internacionais de desempenho clínico e segurança.


Meu papel nesse processo: estrutura, planejamento e responsabilidade técnica


Ao longo da minha trajetória profissional, sempre atuei na implantação e expansão de serviços de radioterapia. Isso envolve muito mais do que equipamentos: passa por planejamento clínico, desenho de fluxo assistencial, infraestrutura física, capacitação de equipes e integração com sistemas hospitalares.


No projeto da protonterapia, minha atuação tem sido justamente garantir que essa complexidade seja tratada com o nível de rigor que a tecnologia exige. Isso inclui:


  • Avaliação técnica da solução escolhida

  • Planejamento da infraestrutura física (incluindo bunker e áreas críticas)

  • Definição de protocolos operacionais

  • Integração com equipes médicas, físicas e administrativas

  • Benchmark com centros internacionais


Após visitar centros de terapia por prótons nos Estados Unidos e na Europa, ficou claro que o objetivo não poderia ser “ter um centro”, mas sim ter um centro que opere no mesmo patamar técnico dos melhores do mundo.


Impacto clínico real: mais do que inovação, melhor cuidado ao paciente


Quando falamos em inovação em saúde, é fácil cair em um discurso tecnológico. Mas, no fim, tudo se resume ao impacto na vida do paciente.


A protonterapia amplia as possibilidades terapêuticas para casos complexos e reduz o risco de sequelas em longo prazo. Em oncologia pediátrica, isso é ainda mais crítico: estamos falando de crianças em fase de desenvolvimento, nas quais a preservação de tecidos saudáveis faz diferença para toda a vida adulta.


Além disso, a proposta do centro é atender pacientes da rede pública e privada, criando um modelo de acesso progressivo a essa tecnologia.


Um centro com vocação científica e formadora


Outro ponto fundamental desse projeto é que ele não foi concebido apenas como uma unidade assistencial.


O centro nasce com três pilares:


  1. Assistência clínica de alta complexidade

  2. Formação de profissionais especializados

  3. Pesquisa e integração científica internacional


Isso significa criar um ambiente capaz de formar físicos médicos, radio-oncologistas, dosimetristas e técnicos em uma tecnologia que até então não existia no país. Também significa inserir o Brasil em redes internacionais de pesquisa em terapia por partículas.

Esse movimento é estratégico para o futuro da oncologia nacional.


O que muda, na prática, para o Brasil


A chegada da protonterapia cria uma mudança estrutural no ecossistema da radioterapia brasileira:


  • Eleva o padrão tecnológico do país

  • Atrai parcerias científicas internacionais

  • Estimula investimento em inovação em saúde

  • Reduz a dependência de tratamentos no exterior

  • Fortalece a formação de profissionais especializados


Mais do que acompanhar uma tendência global, o Brasil passa a participar ativamente desse movimento.


Um convite à construção coletiva


Projetos dessa magnitude não se sustentam de forma isolada. Eles dependem da colaboração entre instituições de saúde, universidades, indústria, pesquisadores e investidores comprometidos com inovação responsável.


Minha visão sempre foi clara: a protonterapia não é um projeto individual, mas uma construção coletiva. Um passo necessário para que o país avance em direção a uma oncologia mais precisa, mais segura e mais alinhada com o que há de melhor no mundo.


Considerações finais


A implantação do primeiro Centro de Protonterapia do Brasil representa uma virada de chave na radioterapia nacional. É o início de um novo capítulo que exige responsabilidade técnica, visão estratégica e compromisso com o paciente.

Seguiremos trabalhando para que esse avanço não seja apenas um marco histórico, mas uma transformação real na forma como cuidamos das pessoas.

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